segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Anos 50 - Principais acontecimentos

Principais acontecimentos dos Anos 50
Esportes
· Realização da Copa do Mundo de Futebol no Brasil, em 1950. O Uruguai sagrou-se campeão após vencer a seleção brasileira, em pleno Maracanã, pelo placar de 2 a 1.
· A FIA (Federação Internacional de Automobilismo) organiza o primeiro Campeonato Mundial de Formula 1, em 1950.
· Em fevereiro de 1951, começam os primeiros Jogos Pan-Americanos. O evento esportivo ocorre na Argentina.
· Realização das Olimpíadas de Helsinque na Finlândia (1952).
· A Alemanha torna-se campeã da Copa do Mundo de Futebol na Suíça (1954).
· Juan Manuel Fangio torna-se bicampeão mundial de Formula 1.
· Em 29 de junho de 1958, o Brasil torna-se, pela primeira na história, campeão da Copa do Mundo de Futebol. O evento ocorreu na Suécia.
Ciência e Tecnologia
· Em 1957, o Sputinik II coloca em órbita da Terra o primeiro ser vivo, a cadela Laika.
Comunicações
· A TV Tupi, inaugurada em setembro de 1950, é o primeiro canal de televisão da América Latina.
· Lançamento do primeiro satélite, o Sputinik I (1957).
Guerras e Conflitos
· Começa a Guerra da Coréia em 25 de junho de 1950. A guerra termina em 27 de julho de 1953.
· Em plena Guerra Fria é assinado, em 1955, o Pacto de Varsóvia (tratado de defesa militar que envolvia os países socialistas do leste europeu, comandados pela União Soviética).
· Em 1959, ocorre a Revolução Cubana. O líder da revolução, Fidel Castro, torna-se presidente de Cuba.
· Começa, em 1959, a Guerra do Vietnã.
Cultura e Arte
· No dia 20 de outubro de 1951, é inaugurada a I Bienal Internacional de Arte de São Paulo.
Política
· Em 6 de fevereiro de 1952, Elizabeth II torna-se rainha da Inglaterra.
· Em 24 de agosto de 1954, ocorre o suicídio do presidente do Brasil Getúlio Vargas.
· Em 16 de setembro de 1955, um golpe militar na Argentina tira do poder o presidente Juan Perón.
· Em outubro de 1955, Juscelino Kubitschek (JK) é eleito presidente do Brasil.
Economia
· Criação da empresa estatal Petrobrás, em 1953.
· Assinado o Tratado de Roma, em 1957, estabelecendo a Comunidade Econômica Européia (CEE).
Música
· Com muito rock e um estilo dançante, Elvis Presley começa a fazer sucesso em 1956.
· A estilo musical brasileiro Bossa Nova começa a fazer sucesso. Os maiores representantes deste movimento foram: Tom Jobim, Vinícius de Morais e João Gilberto.

1950
· Em 20 de fevereiro, Joseph McCarthy, senador norte-americano de Wisconsin, trava uma verdadeira cruzada contra os comunistas infiltrados no governo federal.
· Em 29 de março, a RCA (Radio Corporation of America) lança um tubo de televisão colorido totalmente eletrônico.
· No dia 11 de junho, Henri Matisse, um dos grandes mestres franceses da arte contemporânea, recebe o prêmio da Bienal de Veneza. Matisse é considerado o primeiro representante da escola fauvista, embora tenha rompido com todos os estilos formais já no início da carreira.
· A primeira emissora de TV do Brasil, a TV Tupi, inicia suas transmissões no dia 19 de setembro. Assis Chateaubriand, proprietário da cadeia de emissoras de rádio e jornais "Diários Associados", foi quem trouxe esse novo veículo ao Brasil, quarto país do mundo a tê-lo.
· Getúlio Vargas, candidato do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) é eleito para a presidência da República com quase 50% dos votos, no dia 3 de outubro.
· No dia 10 de dezembro, o escritor norte-americano William Faulkner recebe o Prêmio Nobel de literatura por sua obra. Entre elas, destacam-se "O Som e a Fúria"(1929) e "Absalão, Absalão!"(1936)
· Nesse ano, acontece o primeiro congresso sobre sociologia em Zurique e o artista norte-americano Jackson Pollock pinta "Autumn Rhythm" com as técnicas do expressionismo abstrato.
1951
· Em 30 de março, Julius e Ethel Rosenberg são declarados culpados de espionagem durante a guerra. Os dois nova-iorquinos foram acusados de ter roubado e entregue à então União Soviética segredos sobre a bomba atômica dos Estados Unidos.
· Um tribunal federal de Nova York indicia 21 líderes do Partido Comunista por conspiração para a derrubada do governo dos EUA, no dia 20 de junho.
· No dia 23 de junho, é publicado no jornal "The New York Times", um estudo que revela que a televisão está mudando a maneira como a sociedade norte-americana encara o lazer, a política, a leitura e se expressa culturalmente.
· No Brasil, o Congresso Nacional aprova, no dia 17 de julho, a lei que considera crime qualquer ato de racismo e pode punir com prisão os infratores.
· No dia 20 de outubro, mais de cinco mil pessoas presenciam a abertura da primeira Bienal de Artes de São Paulo, num pavilhão no parque Trianon.
· O livro "Apanhador no Campo de Centeio", primeiro romance do norte-americano J.D. Salinger, é o grande sucesso do ano entre os adolescentes dos EUA.
· Nesse ano, Marlon Brando se torna um astro graças ao filme "Um Bonde Chamado Desejo". A partir daí, a camiseta branca usada pelo ator se torna popular entre os jovens.
1952
· Gene Kelly dança a canção-título do filme "Cantando na Chuva” ·
· Em 8 de março, um coração artificial é utilizado pela primeira vez em um ser humano, no Hospital Pensilvânia, da Filadélfia, nos EUA.
· No dia 24 de abril, o pintor espanhol Pablo Picasso e vários outros artistas de esquerda reafirmam aos comunistas sua crença no realismo socialista.
· Estréia em Nova York, em 23 de outubro, o filme "Luzes da Ribalta", de Charles Chaplin.
· No dia 5 de novembro, Dwight Eisenhower é eleito presidente dos EUA pelo Partido Republicano.
· A Comissão de Energia Atômica dos EUA anuncia, no dia 16 de novembro, que a bomba H está pronta para ser usada.
1953
· A 20th Century Fox Film Corporation comunica, no dia 1º de fevereiro, que vai converter todo seu sistema de filmagem para o de tela ampliada, chamado cinemascope.
· O casal Rosemberg é executado nos EUA, em 19 de junho.
· Em 28 de julho, um armistício suspende a guerra da Coréia, após 3 anos.
· Vargas sanciona lei de monopólio do petróleo brasileiro, criando a Petrobrás, no dia 3 de outubro.
· Nesse ano, Marilyn Monroe se torna uma diva do cinema com o filme "Os Homens Preferem as Louras".
· O filme "A Um Passo da Eternidade", com Burt Lancaster e Deborah Kerr causa escândalo e sua exibição quase é proibida por causa do célebre beijo da praia entre os dois atores.
1954
· Em 5 de fevereiro, Chanel reabre sua maison em Paris, fechada em 1939 por causa da guerra.
· Em 24 de maio, a IBM (International Business Machines), empresa dos EUA, anuncia que fabricou um cérebro eletrônico projetado especificamente para uso em negócios.
· No dia 24 de julho, a miss Brasil, a baiana Marta Rocha, não consegue o título de miss Universo, por ter duas polegadas a mais nos quadris.
· Mao Tse-tung é reeleito para outro mandato de quatro anos como presidente da República Popular da China, no dia 27 de setembro.
· Ernest Hemingway ganha o Prêmio Nobel de Literatura em 10 de dezembro. Entre suas obras, destacam-se "Adeus às Armas (1929), "Por Quem os Sinos Dobram" (1940) e "O Velho e o Mar" (1952), que lhe rendeu, em 1953, o Prêmio Pulitzer.
· Astrônomos anunciam, em 27 de dezembro, que a observação de 800 galáxias mostra que o Universo nasceu de uma gigantesca explosão cósmica - chamada de Big Bang -, que teria ocorrido há 5,5 bilhões de anos.
1955
· Em 14 de maio, as nações do bloco oriental firmam o Pacto de Varsóvia, que as unifica militarmente.
· No dia 31 de maio, a Suprema Corte norte-americana determina aos Estados o fim da segregação racial.
· Em 3 de outubro, Juscelino Kubitschek é eleito presidente do Brasil.
· Em 26 de novembro, a então União Soviética, confirma que possui a bomba de hidrogênio.
· Neste ano, a indústria japonesa Sony lança o primeiro rádio portátil transistorizado produzido em massa.
· Estréia o filme "Juventude Transviada", com James Dean, que se torna o símbolo de rebeldia dos anos 50.
1956
· Em 1º de fevereiro, o presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek, expõe, em seu primeiro dia de governo, um plano desenvolvimentista em que promete fazer o país avançar "50 anos em 5".
· Em 22 de março, o reverendo Martin Luther King Jr. é considerado culpado dos boicotes ao serviço de ônibus de Montgomery, Alabama, nos EUA.
· Elvis Presley bate recorde de audiência em sua apresentação na TV, em 9 de setembro.
1957
· Em 16 de fevereiro, o prefeito de São Paulo, Jânio Quadros, proíbe o rock and roll nos bailes.
· Em 27 de julho, Pelé estréia na seleção brasileira com 16 anos e marca o único gol na derrota para a Argentina por 2 a 1.
· A então União Soviética anuncia, em 4 de outubro, que lançou com sucesso em órbita ao redor da Terra o primeiro satélite fabricado pelo homem, o Sputinik 1.
· A então União Soviética lança, no dia 3 de novembro, seu segundo satélite espacial, desta vez tripulado por uma cadela chamada Laika.
· Albert Camus recebe o Prêmio Nobel de literatura no dia 10 de dezembro. Entre suas obras, destacam-se "O Estrangeiro"(1942) e a peça "Calígula"(1948).
· Em 19 de dezembro, a Otan aprova a presença de armas atômicas dos EUA na Europa, incluindo mísseis de alcance intermediário.
· O livro "Na Estrada", de Jack Kerouac, faz sucesso e marca a chamada geração beat. O beatniks falam no ritmo e na linguagem do jazz e detestam a obsessão da classe média por objetos e pela harmonia. Os poetas Allen Ginsberg e Lawrence Ferlinghetti são alguns dos representantes dessa nova tendência.
1958
· Em 10 de julho, a Odeon lança um disco de João Gilberto com as músicas "Chega de Saudade", de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, e "Bim-Bom", do próprio João. A forma intimista de cantar, o arranjo econômico e os acordes dissonantes e saltos melódicos das músicas, surpreendem e vem modificar todo o cenário musical da época. É o início da bossa nova.
· Em 17 de setembro,o líder guerrilheiro Fidel Castro lança prometida ofensiva contra as tropas do governo Batista em Cuba.
· No dia 28 de outubro, João 23 torna-se o novo papa da Igreja católica, escolhido para substituir Pio 12, morto no dia 9.
· Em 31 de outubro, o escritor Bóris Pasternak recusa o Prêmio Nobel de literatura. Existem rumores de que ele tenha sido pressionado pelo governo soviético, já que seu romance "Doutor Jivago", centrado na Revolução Russa, critica os ideais soviéticos.
· Mary Quant abre sua loja "Bazaar", na King's Road, em Londres, a princípio comprando as roupas, mas logo em seguida desenhando-as e produzindo-as.
· Nesse ano, uma grande epidemia de graves deformações congênitas é atribuída à talidomida, um remédio vendido na Europa como pílula para dormir e tratamento contra o enjôo matinal durante a gravidez.
1959
· De Gaulle toma posse como presidente da França, no dia 8 de janeiro.
· No dia 16 de janeiro, as forças do revolucionário Fidel Castro conquistam Cuba.
· Em março, a boneca Barbie é apresentada oficialmente na Feira do Brinquedo de Nova York. Criada pela Mattel norte-americana, ela sempre acompanhou as mudanças de comportamento e da moda. A Barbie é a boneca mais vendida no mundo atualmente.
· No dia 13 de abril, o para João 23 proíbe os católicos de votar em comunistas.
· Em 4 de julho, a tenista brasileira Maria Ester Bueno, de apenas 19 anos, torna-se a primeira sul-americana a vencer o tradicional torneio de tênis de Wimbledon, na Inglaterra.
· No dia 18 de julho, Fidel Castro depõe Urrutia e torna-se presidente de Cuba.
· A Nasa é criada em 29 de julho, por uma lei que dá milhões de dólares ao programa espacial.
· Em 14 de setembro, os soviéticos lançam a primeira nave espacial já construída a realizar uma viagem à Lua, a Lunik 2.
A nova cultura de massa: cinema e rádio nos 1950
No final dos anos 1940, o Brasil era um país recém-democrazido e que sonhava em se tornar moderno e industrializado. As divisas acumuladas ao longo da Segunda Guerra, durante a qual o Brasil foi um importante fornecedor de produtos para os aliados (sobretudo agrícolas e de matéria-prima industrial), tinham rapidamente se esgotado, sem que o país tivesse entrado num estágio industrial superior. A volta de Getúlio Vargas ao poder, reeleito pelo voto popular em 1950, consolidou uma nova forma de política de massas: o populismo. A partir de então, os diversos níveis do poder político, exercido com o sustentáculo de partidos organizados em escala nacional (os mais importantes eram o PSD Partido Social Democrático, o PTB - Partido Trabalhista Brasileiro - e a UDN - União Democrática Nacional), tinham como Interlocutor o povo, visto pelas lideranças como um todo orgânico e sem conflitos. Ainda que hesitasse em consolidar uma democratização efetiva das grandes decisões políticas nacionais, o nacionalista de Getúlio Vargas prometia libertar o país do subdesenvolvimento, realizando uma política de industrialização com base em grandes empresas estatais, como a Eletrobrás, a Petrobrás e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, criadas durante o seu governo.

Um ano antes da eleição de Getúlio Vargas (ptb), na qual ele derrotou os seus adversários do psd e da udn, houve uma outra eleição bastante disputada: a de "Rainha do Rádio". Se o cargo não era tão fundamental para os destinos da nação, como o de presidente da República, a eleição movimentou as paixões populares tanto quanto a eleição presidencial. O concurso de "Rainha do Rádio" havia sido reorganizado em 1948 pela Associação Brasileira do Rádio e, naquele ano, a cantora Dircinha Batista havia sido eleita. Mas foi em 1949 que a coisa pegou fogo. A favorita da Marinha, Emilinha Borba (Emília Savana da Silva Borba), jovem cantora de origem pobre do subúrbio do Rio de Janeiro, perdeu a eleição para a paulista Marlene (Vitória Bonaiutti de Martino). Na verdade, a eleição era feita a partir da compra de cupons, parte integrante das populares revistas de rádio da época, e a Antarctica, empresa de refrigerantes, comprara os cupons para a eleição da cantora Marlene. Os fãs das duas cantoras, ambas contratadas da Rádio Nacional, a maior emissora da época, iniciaram uma rivalidade histórica, amplamente estimulada pêlos meios de comunicação e que até hoje é lembrada pêlos mais velhos. Emilinha Borba só viria a ser eleita em 1953, depois de uma ampla mobilização de seu fã-clube, que conseguiu reunir um milhão de votos. Mas, como e por que uma simples eleição simbólica, embora comercialmente importante para a carreira das cantoras, conseguia movimentar tantas paixões? A resposta pode estar na importância que o rádio tinha na vida das massas urbanas

A sociedade brasileira, sobretudo as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, assistia a um considerável processo de urbanização desde as primeiras décadas do século xx. Mas foi na segunda metade dos anos 1940 que este processo se intensificou, mantendo índices impressionantes até os anos 1970. Obviamente, não se pode falar de urbanização no Brasil, sem citar dois fenômenos correlatas: migração (do norte para o sul e do interior para a capital) e industrialização. Os migrantes, seja das áreas rurais do Centro-Sul seja do Nordeste como um todo, se tornarão a base social das novas camadas populares urbanas, somando-se aos descendentes dos escravos e ex-escravos e imigrantes europeus, que desde o final do século xk constituíam boa parte das camadas populares das capitais brasileiras. Para todo esse conjunto heterogêneo de população que fornecia os contingentes de mão-de-obra para as indústrias que se instalavam no país, o rádio tinha um papel fundamental. Ele era fonte de informação, de lazer, de sociabilidade, de cultura. Estimulava paixões e imaginários, não só individuais, mas, sobretudo, coletivos.

Mas não se pode dizer que o rádio era um fenômeno apenas das classes populares urbanas e que na década de 1950 chegaria aos camponeses com maior intensidade. Até o final dos anos 1950, ele cia uma peça obrigatória em quase todos os lares, dos mais ricos aos mais pobres. Fenômeno de massa desde os anos 1930, base da expansão da rica cultura musical brasileira, a radiodifusão sofreu 11 m grande processo de massificação a partir do final da Segunda guerra Mundial. Na segunda metade dos anos 1940, o rádio se consolidou como fenômeno cotidiano, ligado à cultura popular urbana, veiculando principalmente melodramas (novelas) e canções. A partir de 1945, a Rádio Nacional massifica os chamados programas de auditório, um gênero que trazia para o rádio a participação direta das massas e que consolidou a vocação popular desse meio de comunicação, potencializando ainda mais a paixão em torno do veículo. Definitivamente, a batalha iniciada nos anos 1930 pêlos moralistas c educadores mais sisudos, por um rádio educativo, veiculador tanto de uma cultura superior europeizada quanto da cultura nacionalista folclorizada, estava perdida. As paixões populares, o gosto musical mais simples e a busca por lazer por parte da maioria da população haviam triunfado, até porque coincidiam com os interesses dos empresários por trás desse meio de comunicação. Daí, compreende-se por que, em torno de 1948, consagrou-se entre as vozes mais preconceituosas da imprensa a expressão de "macacas de auditório", para qualificar o novo público radiofónico das empregadas domésticas, negras e pobres, que se manifestavam ruidosamente diante de seus ídolos.

Além disso, também desde meados dos anos 1940, a vertente mais popular do cinema brasileiro consolidava a tendência das chanchadas musicais, nas quais histórias quase sempre banais, a estética carnavalesca e o gosto popular eram a base de produções baratas, que conseguiam, porém, um espaço significativo de audiência, em meio a uma indústria cada vez mais hegemonizada pêlos norte-americanos. A maior parte das produções das companhias mais significativas - Cinédia, fundada em 1929, Atlândida, em 1942, e Cinedistri, em!949 - pode ser incluída na categoria de comédias ou melodramas musicais, nas quais o carnaval era uma temática constante. Quase sempre os filmes mostravam as peripécias de pessoas simples para conseguir um lugar ao sol no meio musical, ao mesmo tempo em que ajudavam os casais apaixonados a vencer os obstáculos à sua união. Outra temática comum, eram as paródias de filmes norte-americanos famosos, como Sansão e Dalila e Matar ou Morrer. Tipos populares, como Oscarito, Grande Otelo, Ankito, Dercy Gonçalves, Mazzaropi, dividiam as telas com galãs, mocinhas e vilões que tentavam imitar o padrão estético dos filmes norte-americanos, ao mesmo tempo em que mantinham um espírito debochado do teatro de revista brasileiro.

Portanto, o carnaval, o rádio e o cinema, a partir da segunda metade dos anos 1940, eram os meios culturais pêlos quais se consolidava uma nova audiência popular, ao mesmo tempo em que, em torno do rádio e do cinema, surgiam as primeiras formas de indústria cultural no Brasil, representando conteúdos culturais vivenciados pelas classes populares, em meio a um processo de urbanização crescente.

Veiculada pêlos dois meios citados, a música popular também sol ria um significativo processo de mudanças. Se o samba, desde os anos 1930, era aceito como a música brasileira típica, a partir do linal dos anos 1940 ele dividia o espaço na programação musi-i ;il tias emissoras de rádio com outros géneros populares. Do nordeste brasileiro, a nova sensação eram os ritmos dançantes, como baião e xote, popularizados por Luiz Gonzaga, que se consagrou nine o grande público do sul com Asa branca, de 1947. Aliás, a Ima contra a seca e pela dignidade do homem do sertão era tema constante nesse género musical. Da América Latina, o bolero, sobretudo o bolero mexicano, foi a grande sensação, hegemónico ao longo dos anos 1950 e que mudou a própria face do samba - daí, a nova forma do samba-canção, na verdade um nome para o samba "abolerado". O romantismo exagerado e a solidão amorosa serviam de inspiração básica para as letras desse estilo musical.

Nas vertentes mais populares do rádio, do cinema, da música dos anos 1950, configurou-se determinada face coletiva do povo brasileiro, síntese de práticas, valores sociais e representações simbólicas e, muitas vezes, puramente ideológicas. Alguns elementos dessa síntese são perfeitamente identificáveis naquela produção cultural: malícia ingénua, senso de humor "natural", esperteza e dignidade diante dos desafios éticos e materiais da vida, solidariedade espontânea com os mais fracos, romantismo, mistura de crítica sutil e conformismo diante da ordem social. Estas características gerais, amplamente percebidas nos produtos da cultura de massa dos anos 1950, obviamente, não podem ser analisadas sem as tensões e contradições inerentes. Mas, de uma forma ou de outra, marcaram uma representação do popular, que atravessará as décadas seguintes, apesar do surgimento de outras formas de representar o povo, como veremos adiante.
O popular irrompia sob as mais diversas formas, tanto na política como na cultura, sem necessariamente caracterizar uma relação de "reflexo" da primeira sobre a segunda. Enquanto a dramática greve de trezentos mil operários paralisava São Paulo por 24 dias, em 1953, as cantoras de origem proletária, Emilinha Borba (1953) e Angela Maria (1954), ganhavam a consagração suprema como "Rainhas do Rádio". Os mesmos ouvintes que choravam diante dos melodramas radiofónicos emocionaram-se com a carta-testamento de Getúlio Vargas, cuja própria trajetória política não fica nada a dever tanto para a chanchada carnavalesca quanto para as novelas de rádio. Portanto, a cultura era mais uma lente pela qual a sociedade se representava do que um espelho que refletia a "realidade" das estruturas económicas e políticas.
No labirinto de espelhos que constituiu as imagens da cultura popular massificada nos anos 1940-1950, muitos foram os elementos refletidos e refletores. O real e o imaginário se entrecruzaram e a luta pela articulação desses dois elementos e sua inculcação coletiva têm sido o fermento da história. O resultado deste processo que analisamos é que o Brasil descobriu, ou melhor, reinventou as imagens sobre o seu povo.

A burguesia e a cultura
Sem dúvida, as representações simbólicas do popular se adequaram (e, em parte, foram produto delas) às manipulações ideológicas, por parte das elites brasileiras, na construção de um tipo popular ideal: conformado, mas com vontade de subir na vida, malandro, mas, no fundo, ordeiro, crítico, porém nunca subversivo. Se por parte das camadas populares os produtos culturais que veiculavam essas representações serviam como válvula de escape das tensões sociais e políticas que o Brasil atravessava, por parte das elites eram vistas como uma representação subdesenvolvida, típica do terceiro mundo provinciano, produto da mistura das raças e do atraso sociocultural. Nos anos 1950, percebemos uma contradição crescente no campo da cultura brasileira, que se agravaria nas décadas seguintes e expressava os dilemas de uma sociedade excludente, desigual e conflituosa. Ainda que eventualmente úteis, para fins de manipulação ideológica, para uma boa parte das elites políticas o povo e os produtos culturais a ele dirigidos eram motivo de vergonha (sobretudo para a parte da elite ligada à cultura e à educação). Na visão dessa elite, o problema não era o veículo de comunicação e expressão em si (o rádio e o cinema, por exemplo) mas os conteúdos e os tipos humanos veiculados, quase sempre pessoas pobres, lutando pela vida, ou tipos debochados e cafajestes, malandros que fugiam às normas de conduta da burguesia. ()s enredos dos filmes e novelas de rádio também eram criticados, na medida em que se apoiavam em temáticas consideradas cscapistas e banais.
Partindo dessa percepção, alguns segmentos da sociedade brasileira passaram a gestar um outro projeto de cultura, que deveria representar a face civilizada e educada do povo brasileiro, provando a capacidade técnica e criativa da nossa sociedade em comparação com os centros urbanos mais valorizados da Europa e dos Estados Unidos, e com as formas culturais tidas como superiores, nas várias áreas de expressão.

Enquanto o principal foco de produção das imagens sobre o povo urbano brasileiro foi o Rio de Janeiro (cuja cultura de massa sintetizou tipos populares de outros lugares, como a baiana e o sertanejo), consolidando uma vocação que vinha desde os anos l 920, a cidade de São Paulo, nos anos 1950, foi o foco da introdução de novos patamares técnicos (e, em alguns casos, criativos) de produção para as diversas áreas das artes.

Apesar dessa tendência, não podemos esquecer que foi o cinema paulista que veiculou um dos tipos populares mais famosos da nossa cultura, o caipira, imortalizado pelo comediante Amacio Mazzaropi. C) filme que consagrou o tipo caipira foi Candinho (Vera Cruz, 1954). C) filme conta a história de um caipira, Candinho, e seu jumento Policarpo. Os dois, cansados da vida dura do campo, vêm para São Paulo, já na época considerada uma metrópole assustadora. Candinho se apaixona por uma moça de vida fácil, mas consegue convencê-la a voltar para o campo, representado como contraponto moral ao inferno urbano. Apesar de ser uma comédia despretensiosa, o filme idealizava a vida rural e, nesse sentido, tentava construir uma referência moral para um mundo de rápidas mudanças em direção à modernidade urbana. Em 1963, Mazzaropi fundou sua própria produtora cinematográfica e seguiu fazendo muito sucesso entre o público mais amplo, com seu tipo caipira ingénuo e frágil diante de um mundo moderno, assustador e implacável.
Mas, no geral, a palavra de ordem, em São Paulo, era atualização cultural, busca de um compasso com o mundo desenvolvido. Em outras palavras, atualizar as formas, representações e tecnologias da produção artístico-cultural, cujo modelo era a "cultura" do mundo desenvolvido. Na verdade, essas iniciativas de atualização se concentraram em três áreas principais: teatro, cinema e artes plásticas. A música popular continuava tendo no Rio de Janeiro seu principal loco criativo, cujos meios de comunicação ditavam os grandes sucessos nacionais. Em São Paulo, o tbc - Teatro Brasileiro de Comédia, a < (tmpanhia Cinematográfica Vera Cruz e as mudanças no campo das artes plásticas - criação do masp (Museu de Arte de São Paulo) em 1947, do mam (Museu de Arte Moderna) em 1948, e da Bienal de Artes Plásticas - são as expressões mais significativas desse processo. Mas não devemos esquecer que, a partir de São Paulo, surgia um outro sistema de comunicação de massa, ainda tímido: a televisão (criada em 1950, pelo empresário Assis Chateaubriand, o mesmo empresário por trás do masp). Enfim, no final dos anos 1940, a abastada burguesia paulista resolveu transformar a hegemonia econômica de São Paulo em hegemonia cultural, entrando em franca rivalidade com a supremacia cultural e política do Rio de Janeiro. Nesse projeto, forjava-se uma outra identidade brasileira, mais preocupada em mostrar "modernidade" e sofisticação de forma e conteúdo (embora o resultado das obras e produções nem sempre tenha confirmado esta vontade).


O tbc, fundando pelo industrial Franco Zampari, tinha o objetivo de trazer para o Brasil o fino da dramaturgia mundial, tanto autores clássicos como modernos consagrados, entre eles Tenessee Williams, Arthur Miller, J. R Sartre, M. Gorki e Pirandello. Autores brasileiros também foram encenados, com muito sucesso, como Abílio Pereira de Almeida (Santa Marta Fabril S.A.), Dias Gomes (O pagador de promessas) e Jorge Andrade (Os ossos do Barão, Vereda da salvação). A proposta básica do projeto do TBC era "instaurar o bom gosto" teatral no público brasileiro, até então habituado com as comédias de costume, levadas ao palco por nomes como Procópio Ferreira e Dulcina de Moraes. Para garantir o "padrão internacional" do tbc, foram trazidos diretores, técnicos e encenadores do exterior, sobretudo da Itália (Adolfo Celi, Ruggero Jacobi, Alberto D'Aversa, Flamínio Cem, entre outros). Paralelamente, para promover a formação profissional de atores competentes, foi criada a Escola de Arte Dramática, por Alfredo Mesquita. No palco do tbc e nos bancos da ead estiveram grandes atores, como Cacilda Becker, Sérgio Cardoso, Paulo Autran, Maria Delia Costa, Leonardo Villar, Aracy Balabanian, Raul Cortez e dezenas de outros que se tornaram conhecidos do grande público mais tarde, ao serem contratados pela televisão.

Antes mesmo da fundação do tbc, o Rio de Janeiro viveu uma verdadeira revolução teatral, com a associação entre Zbigniew /icmbinski (diretor polonês refugiado no Brasil devido à perseguição nazista), Thomaz Santa Rosa (cenógrafo) e Nelson Rodrigues (autor). Em 1943, os três levaram aos palcos Vestido de noiva, texto de Nelson Rodrigues, encenado pela companhia teatral Os Comediantes. A peça i raiava da trajetória, dos desejos e das frustrações de uma mulher, em três planos distintos e paralelos: a realidade - uma mesa de operação, pois a protagonista, Alaíde, havia sido atropelada e estava à beira da morte -, a memória - as lembranças da infância, enquanto agoniza - e a alucinação — a inserção de personagens e situações imaginadas, fruto do seu desejo reprimido. Os ires planos se fundiam num tratamento muito próximo à tragédia grega, com diálogos fortes, que procuravam traduzir a tensão (característica dos textos de Nelson Rodrigues) entre a irrupção do desejo e das paixões e os deveres estabelecidos pela moral familiar e social. Ao longo da segunda metade dos anos 1940 até os anos 1960, Nelson Rodrigues escreveu textos que se tornariam clássicos, não só da dramaturgia brasileira, como mundial. Destacamos: Álbum de família (1946), Senhora dos afogados (1947), Dorotéia (1949), A falecida (1953), Perdoa-me por me traíres (1957), Boca de ouro (1959), Toda nudez será castigada (1965). Fundindo temas universais com situações e tipos humanos característicos do subúrbio carioca, o polémico Nelson chocou a classe média brasileira, apesar de seu conhecido conservadorismo político, pois levava ao palco temas como incesto, traição, fantasias sexuais, condutas morais desviantes, entre outros tabus comporta-mentais. Sintomaticamente, o tbc, expressão do ideal de bom gosto da burguesia paulistana, nunca encenou Nelson Rodrigues.

A Companhia Cinematográfica Vera Cruz tinha uma pretensão ainda maior do que o tbc. Mais do que formar o gosto do público, a ideia era competir com o império de Hollywood, realizando filmes com conteúdo e nível técnico semelhantes ao padrão norte-americano. Enquanto o Rio de Janeiro consagrava o padrão das chanchadas para as plateias populares, a Vera Cruz, instalada num enorme estúdio, de 100 mil m2, em São Bernardo do Campo , queria conquistar o grande público mais voltado para os filmes nortc-americanos. Seus filmes de maior sucesso foram: Caiçara (1950), Tico-tico no fubá (1952), que contava a vida do compositor Zequinha de Abreu, SinháMoça (1953), Floradas na serra (1954) e, principalmente, O cangaceiro (1953), grande sucesso de bilheteria e vencedor do Festival de Cannes na categoria melhor filme de aventuras. Apesar desses sucessos, a Vera Cruz acumulou prejuízos crescentes, sobretudo devido às dificuldades de distribuição dos seus filmes. Em 1954, terminou o sonho hollywoodiano brasileiro, com a falência da empresa.
Num circuito cultural diverso, o mundo das artes plásticas, mesmo circunscrito a um pequeno círculo social, foi fundamental para consolidar um outro fenómeno da cultura brasileira moderna, massificada nos anos 1960: a tendência formalista da vanguarda, em muitos casos próxima à abstração pura, que será vista como sinónimo de sofisticação e modernidade por amplos segmentos da elite, cujo impacto inicial se viu nas áreas de arquitetura, escultura e pintura. Destacavam-se as formas geométricas, consideradas frias e racionalistas, sem ornamentos decorativos, exageros ou elementos sem funcionalidade no conjunto da obra.

Mas esta busca de uma representação mais contemporânea nas artes plásticas convivia com o culto aos grandes génios da pintura universal, como Degas, Renoir, Van Gogh, os quais finalmente tinham espaço na cidade, com a ousada criação do Museu de Arte de São Paulo. Os paulistanos (c brasileiros) já não precisavam viajar para Paris ou Londres para ver as grandes obras de pintura e escultura. Com o tempo, o Masp se tornou um espaço popular e símbolo da cidade, sobretudo depois da inauguração da sua nova e arrojada sede, em 1968, na avenida Paulista. Se o Masp foi criado para ser o espaço do panteão artístico consagrado ao longo dos séculos pela arte ocidental, do século xrv até o final do xk, o mam passou a se dedicar às novas tendências, assim como um dos eventos internacionais mais famosos das artes plásticas: a Bienal. A primeira Bienal foi organizada em 1951, no recém-inaugurado pavilhão no Parque do Ibirapuera, cujo prédio, em si, era uma peça de arte moderna, com seu despojamento e grandes espaços interiores.
Sinais de ruptura: as novas vanguardas
A I Bienal de São Paulo, em 1951, começou a gerar frutos alguns anos mais tarde. O impacto da obra abstrata do escultor suíço Max Bill incrementou a discussão sobre os caminhos da arte brasileira, na busca de atualização, em relação às tendências internacionais. A partir de uma perspectiva crítica e formalista, tentando radicalizar uma visão geométrica e racional das artes e, assim, refletir sobre o papel das artes numa sociedade marcada pêlos meios de comunicação de massa e pela indústria, consagrou-se em 1956, uma proposta estética radical: o concretismo.
Inicialmente, o movimento concretista se articulou nas artes plásticas, com o Grupo Ruptura, de São Paulo, consagrando-se pouco depois a partir das experiências poéticas do Grupo Noigrandes: Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, que também haviam participado do Grupo Ruptura. Nessa nova proposta, a palavra, como unidade básica da comunicação linguística e poética, passava a ser questionada e, na perspectiva do movimento, deveria ser fragmentada, decomposta em signos e colocada numa perspectiva visual e concreta. Por outro lado, a expressão nas várias artes - poesia, artes plásticas e, mais tarde, na música - deveria buscar a abstração racionalista, geométrica, antiintuitiva e incorporar novas técnicas e materiais - gráficos, sonoros, imagéticos - proporcionados pela sociedade industrial e pela nova linguagem da publicidade, com seus cartazes e efeitos visuais inovadores.

A frieza e o rigor formalista e racionalista do Concretismo foram questionados pelo chamado Neoconcretismo, um movimento formado inicialmente por artistas do Rio de Janeiro (Lygia Clark, Hélio Oiticica e o poeta Ferreira Gullar, em sua primeira fase), por volta de 1957. Esses artistas recuperaram o caráter simbólico e expressivo da arte, sem abrir mão da pesquisa sobre novas formas.
Gênese da arte engajada na esquerda
Após a Segunda Guerra, o Partido Comunista Brasileiro emergiu como uma das agremiações políticas mais prestigiadas pêlos intelectuais. A luta heróica da União Soviética contra Hitler, bem
como a resistência dos partidos comunistas da Itália, França, Iugoslávia, entre outros, contra a ocupação alemã, acabou por ser decisiva para a derrota do totalitarismo nazi-fascista. Mas o sonho da convivência pacífica entre os blocos capitalista liberal (liderado pelos EUA) e socialista liderado pela então urss) logo esvaneceu-se. Hm 1947, tem início a chamada guerra fria. No Brasil, o governo pró-americano de Eurico Gaspar Dutra (1946-1950) declarou o PC brasileiro ilegal e rompeu relações com a União Soviética. Depois de um isolamento político inicial, entre 1947 e 1953, o Partido Comunista Brasileiro aproximou-se do Partido Trabalhista Brasileiro, de Getúlio Vargas, utilizando-se desta legenda para eleger alguns parlamentares. Mas, de fato, o pcb teve uma influência marcante nos meios artístico e intelectual, sobretudo entre literatos, músicos, jornalistas, e nos meios sindicais, principalmente os de operários e de trabalhadores das empresas estatais, como os ferroviários. Além disso, no Brasil, a figura lendária de Luís Carlos Prestes, um militante solto em 1945 depois de dez anos de prisão, aumentava a aura de heroísmo e idealismo que cercavam o comunismo brasileiro.
Entre 1947 e 1955, aproximadamente, o Partido Comunista Brasileiro adotou uma doutrina estética e uma política cultural oficial que ficou conhecida como realismo socialista. Essa doutrina, nascida na União Soviética em meados dos anos 1930 e ratificada pelo Partido Comunista da União Soviética no final dos anos 1940 graças à atuação de Andrei Jdanov - por isso, ela também foi conhecida como jdanovismo -, forneceu as diretrizes de produção e difusão cultural do PC até que a morte de Joseph Stalin (1953) e a crítica do próprio pcus ao stalinismo, feita no seu xx Congresso em 1956, abalassem o seu prestígio. Os princípios fundamentais dessa doutrina eram os seguintes: a arte deveria ser feita a partir de uma linguagem simples e direta, quase naturalista; o conteúdo deveria ser portador de alguma mensagem exortativa e modelar para as lutas populares; os heróis e protagonistas "do bem" deveriam ser figuras simples, positivas e otimistas, dispostas à luta e ao sacrifício em nome do coletivo; os valores nacionais e populares, folclóricos, deveriam ser fundidos com ideais humanistas e cosmopolitas, herdados da arte ocidental dos séculos xvm e xrx.

Apesar de uma expressiva atuação em várias áreas da cultura popular - destacamos a aproximação do Partido Comunista com as Escolas de Samba do Rio de Janeiro, em 1945 - e erudita, sobretudo entre os compositores da escola musical nacionalista, foi nos campos da literatura e da dramaturgia que os ideais comunistas tiveram maior penetração. Importantes nomes, como Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Dias Gomes, Oduvaldo Vianna (o pai), eram figuras ligadas ao partido. Além disso, o pcb tentou desenvolver uma política de difusão de romances populares, por meio da coleção Romances do Povo, baseados nos princípios do realismo socialista, mas que não teve muito fôlego.
Porém, o mais importante é que tipos e personagens ficcionais criados pêlos dramaturgos e escritores, sobretudo Jorge Amado e Dias Gomes, se tornarão parte do imaginário brasileiro e, ao longo dos anos 1960 e 1970, invadirão outras artes e meios de comunicação, como o cinema, a música e a própria TV (lembramos que Dias Gomes será um dos principais autores de novelas da Rede Globo, a partir dos anos 1970). Portanto, esse é um outro viés formador da cultura brasileira moderna amplamente consagrado, mesmo sem o caráter ideológico inicial, pela cultura massificada. A galeria de heróis populares (operários lutadores, camponeses dignos, beatos messiânicos, malandros solidários e sedutores, prostitutas dignas etc.) era representada em permanente conflito com coronéis autoritários, políticos corruptos, padres conservadores, burocratas individualistas e capitalistas usurpadores.
O teatro e o cinema reinventam o povo
Duas áreas de expressão artística, a partir da atuação de membros e simpatizantes do pcb, tiveram um papel importante na renovação das artes de espetáculo nos anos 1950: o teatro e o cinema. Se a cultura de massa da época, como já dissemos, consagrava uma dada imagem do povo brasileiro, ou seja, os membros das classes populares que habitavam o campo e a cidade, alguns jovens dramaturgos e cineastas, que atuavam fora dos grandes esquemas comerciais, desenvolveram algumas variantes dessas representações. Surge então um novo olhar sobre o povo brasileiro, sintetizado na figura humana do operário.
No início dos anos 1940, a crítica cinematográfica, sobretudo a paulista, se pautava pela estética do neo-realismo italiano para criticar a suposta inexistência do cinema brasileiro. A criação da Vera Cruz (4/11/1949), em parte uma reação à cinematografia carioca (chanchadas, comédias carnavalescas, filmes oficiais), não deixava de ser uma resposta a esse suposto vazio.
Mas a esquerda procurava se distanciar do modelo altamente comercial de cinema. Alex Viany destacou-se como crítico do cinema de estúdio brasileiro, defendendo a busca de um sistema não-empresarial, que falasse sobre a condição do povo brasileiro e sobre a cultura nacional ameaçada pela crescente influência norte-americana em todos os setores da vida brasileira. Em torno das ideias dos críticos de cinema do pcb surgiu um conceito de cinema brasileiro: o capital, o estúdio e o laboratório deveriam ser 100% nacionais; dois terços da equipe técnica e todos os intérpretes principais deveriam ser brasileiros. Além desses aspectos de produção, o filme brasileiro deveria desenvolver um tema nacional, buscando o homem brasileiro como homem do povo.
Alguns filmes procuraram seguir esse novo paradigma de criação e produção: Agulha no palheiro (Alex Viany) , Rio, 40 graus e Rio, Zona Norte (ambos de Nelson Pereira dos Santos) e O grande momento (de Roberto Santos). Os personagens e as situações dramáticas eram inspirados no cotidiano do povo brasileiro, suas dificuldades, valores e esperanças. O filme Rio, 40 graus chegou a ser censurado, tendo sua exibição impedida durante vários meses, com a alegação de que exaltava "delinquentes, viciosos e marginais" e denegria a imagem do Rio de Janeiro, pois retratava um dia na vida de vários meninos favelados, vendedores de amendoim, na luta pela sobrevivência em meio a uma cidade indiferente aos seus dramas. Era a primeira vez que o cinema brasileiro representava, de forma tão realista e direta, os dramas sociais urbanos. Em 1955, depois de uma campanha pública liderada por jornalistas e intelectuais, o filme acabou sendo liberado. O outro filme do mesmo diretor, Rio, Zona Norte, seguia na mesma linha e mostrava a vida i lê um favelado, compositor de sambas lutando pelo sucesso e constantemente sendo ludibriado por intermediários oportunistas que termina morrendo num acidente de trem.

O cinema era um dos principais temas em debate nas revistas culturais ligadas ao pcb, como a revista Fundamentos, mas o teatro não recebia muito destaque. Sintomaticamente, a base de uma dramaturgia engajada brasileira nasceu de uma ruptura no interior do teatro burguês, o Teatro Brasileiro de Comédia. No início dos anos 1950, Ruggero Jacobi e Carla Civelli saem do tbc e fundam o Teatro Paulista do Estudante (tpe, ligado à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da usp). Também no interior do tbc, surgiu um outro grupo: o Teatro de Arena, em 1953. O encontro do tpe com o espaço do Arena acabará por "refundar" o Grupo Arena, em novas bases políticas e ideológicas, por volta de 1957, sob a liderança de jovens dramaturgos e atores, como Oduvaldo Vianna Filho, Gianfrancesco Guarnieri e Flávio Migliacio, entre outros. A base filosófica do Arena, já apresentada no II Festival de Teatro Amador, em 1956, era o princípio de que, para um verdadeiro teatro popular, era preciso provocar um desentorpecimento do espectador. A emoção c a identificação provocada pela encenação realista dos dramas sociais e humanos deveria ser a base do desentorpecimento e da criação de uma consciência nacional emancipadora. Portanto, nessa perspectiva, a arte deveria buscar uma expressão que provocasse emoção, sem se dissolver no melodrama sentimental. O despojamento e a simplicidade da forma, aliados ao drama humano pungente, seria o contraponto do melodrama alienado, considerado burguês, pois só representava problemas individuais ou dramas privados.

A aplicação desses princípios pôde ser vista no grande sucesso teatral do ano de 1958: Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco Guamieri, com direção de José Renato. A peça contava a história de dramas e conflitos de uma família operária, durante a realização de uma greve, em que as relações afetivas, os papéis familiares, os projetos individualistas, a solidariedade de classe são colocados à prova pelo desenrolar dos dramáticos acontecimentos. A peça estreou em maio de 1958 e se tornou um grande sucesso de público e crítica, percorrendo várias capitais brasileiras.

Do contato dos membros do Teatro de Arena paulista com os estudantes cariocas - a peça estreou no Rio de Janeiro em setembro de 1959 - nasceu a ideia da criação de um Centro Popular de Cultura. As ideias estéticas e as peças realizadas pelo Arena entre 1956 e 1960 serão fundamentais para entendermos uma das principais expressões do engajamento artístico no Brasil dos anos 1960 e que podemos chamar, genericamente, de "cepecismo".

Essa agitação de ideias e obras entre cineastas, dramaturgos e atores ligados à cultura política comunista, acabou articulando a própria renovação das estratégias políticas do pcb. Em março de 1958 o Partido assumia para si, oficialmente, a tarefa de construir uma democracia burguesa forte, bem como consolidar o processo de desenvolvimento industrial brasileiro, de preferência sob a hegemonia do capital nacional, numa leitura singular da política desenvolmentista desencadeada pelo Plano de Metas de Juscelino Kubitschek, lançado em 1955. Para o pcb, a tarefa histórica prioritária, mais importante do que a autonomia e a luta revolucionária específica da classe operária, era fortalecer a burguesia nacional e a democracia formal/institucional, numa aliança tática com a classe, a princípio, antagónica. Essa visão etapista da história, quase uma doutrina entre os comunistas na época, que colocava a fase democrático-burguesa como etapa historicamente necessária para a construção posterior de um movimento revolucionário de cunho socialista, foi a base da aliança de classes sociais que sustentou os últimos anos da democracia populista, destruída pelo golpe militar de 1964. Como veremos, durante o golpe a burguesia brasileira não teve dúvida: aliou-se aos reacionários de toda sorte - latifundiários, capitalistas internacionais, banqueiros - na contenção da crescente mobilização popular de camponeses e operários. A ilusão do pacto populista em prol do desenvolvimento nacional contra o imperialismo, tão presente nas artes engajadas, desvaneceu repentinamente.
Tradição e ruptura na bossa nova
No início de 1959, o panorama musical brasileiro foi sacudido por um sussurro que virou um terremoto. Foi produzido por um cantor que, praticamente, sussurrava um doce balanço, acompahado do seu "violão diferente". Era o baiano João Gilberto, que desde o início dos anos 1950 frequentava os ambientes musicais do Rio de Janeiro, sobretudo a boémia em torno das boates da Zona Sul, e naquele ano lançou o LP (longplay) Chega de saudade. A maioria das faixas, mesmo remetendo à tradição rítmica do samba, trazia elementos do cooljazz, sobretudo na maneira contida de cantar, sem ornamentos e com voz baixa. Imediatamente, o novo ritmo foi apelidado de Bossa Nova, e parecia ir ao encontro do gosto de um segmento moderno da classe média, que havia se ampliado depois da política industrializante de Juscelino Kubitschek.

Com João Gilberto, consagraram-se para o grande público nomes já conhecidos como António Carlos Jobim, arranjador, maestro e compositor já respeitado entre os músicos, e o poeta Vinícius de Moraes, já com uma sólida carreira literária. Jovens músicos, ainda estudantes, como Carlos Lyra, Oscar Castro Neves, Roberto
Menescal, entre outros, juntaram-se ao movimento e, em menos de um ano, a Bossa Nova dominava o ambiente musical mais sofisticado das grandes cidades brasileiras. Já não era mais preciso ter uma grande voz, de estilo operístico, para interpretar as canções populares. Além disso, João Gilberto havia demonstrado que o violão servia para algo mais do que realizar o acompanhamento melódico do cantor. Com a batida de João Gilberto, o violão parecia uma verdadeira orquestra: era harmónico e rítmico ao mesmo tempo. "Um banquinho e um violão" era o lema que traduzia a vontade de síntese, de sutileza, de despojamento que passou a ser confundida com a boa música popular brasileira, moderna e sofisticada. Nas letras também se notava uma tendência à sutileza e à contenção na expressão exagerada dos sentimentos, portanto, ao com+trário dos boleros mais populares.

É claro que a Bossa Nova não foi uma unanimidade. Aliás, muita gente não gostava, principalmente os ouvintes das camadas mais populares, cujo ouvido se adaptara aos grandes vozeirões que faziam sucesso no rádio, como Francisco Alves, Nelson Gonçalves, Angela Maria. A música brasileira, no início da década de 1960, dividiu-se entre o samba "moderno" e o samba "quadrado".

Mas o samba moderno, a Bossa Nova, rapidamente ganhou a audiência mais sofisticada, que até então ouvia música erudita e jazz norte-americano. Por outro lado, uma boa parte dos filhos das classe média, que formavam a maioria dos universitários, passou a se interessar por música popular, a partir do impacto do novo movimento. Se você tivesse uma boa ideia, já não era mais preciso fazer literatura, bastava uma boa canção. Ao longo de 1959, a Bossa Nova ganhou as universidades, no Rio e em São Paulo. Os shows na Faculdade de Arquitetura e na puc-rj, foram muito impactantes. A imprensa também correu atrás do movimento, estampando manchetes e notícias. A publicidade, que se beneficiava do novo boom de consumo proporcionado pela política de desenvolvimentismo de JK, também não perdeu tempo. Percebendo que a bossa nova tinha uma boa receptividade junto aos consumidores mais abastados, utilizou-se amplamente do termo para qualificar os produtos anunciados. O Brasil assistia a uma febre bossa-novista: havia automóvel bossa-nova, geladeira bossa-nova, moda bossa-nova e até o presidente que se retirava do poder passou a ser chamado de presidente bossa-nova.

Na mesma época da Bossa Nova na música, surgia o Cinema Novo. Entre 1960 e 1962, um grupo de jovens cineastas, entre eles Glauber Rocha, Arnaldo Jabor, Ruy Guerra, além do veterano Nelson Pereira dos Santos, preconizava a necessidade de um cinema ousado, em forma e conteúdo, que falasse do Brasil sem copiar os padrões falsamente hollywoodianos das chanchadas da Atlântida e dos dramas da falida Vera Cruz. Se "um banquinho e um violão" c-rã o lema da nova canção brasileira, o Cinema Novo defendia o mesmo princípio de simplicidade formal, "uma ideia na cabeça e uma câmera na mão", ainda que no plano temático, ao contrário da Bossa Nova, o principal assunto dos filmes não fosse o Brasil "moderno, urbano c elegante". A maior parte dos clássicos do Cinema Novo - Ifarmvcnto, Vidas secas, entre outros — retratava o Brasil rural, violento, arcaico e opressor.

Portanto, apesar do mesmo adjetivò - novo - cinema e música popular tinham universos e preocupações diferentes. Se os novos cineastas partiam do princípio de que era necessário romper com o passado cinematográfico brasileiro, na música a coisa não era tão simples. A vigorosa e (musicalmente) respeitada tradição do samba carioca (base da música popular brasileira), que revelou nomes como Pixinguinha, Ary Barroso, NoelRosa, Dorival Caymmi, Orlando Silva, não era o alvo da crítica dos bossa-novistas. O alvo da ruptura era o bolerão mais passional e exagerado, que fazia muito sucesso no final dos anos 1950 (e que, aliás, nunca deixou de fazer sucesso, mesmo ao longo dos anos 1960 e 1970, em pleno auge da moderna mpb). Assim mesmo, alguns intérpretes mais sofisticados de bolero, como Maysa e Dolores Duran, acabaram sendo aceitas pela Bossa Nova. De qualquer forma, para efeito de propaganda e consolidação de um novo público consumidor de música popular, a ideia de uma ruptura com o passado tinha um bom marketing. O sonho da modernidade brasileira tinha encontrado a sua trilha sonora.

Entre 1959 e 1962, a Bossa Nova se consagrou, não tanto pelas suas vendagens de discos, mas pelo novo status sociocultural que ela proporcionou à música popular brasileira. Os norte-americanos já não podiam contar com o seu grande reservatório de música latina, papel desempenhado por Cuba até a Revolução de 1959, e passaram a se interessar por Bossa Nova não só pela sua qualidade musical, mas pela possibilidade de ser o novo ritmo-chave do latin jazz, então em alta no rico mercado daquele país. Depois da descoberta por parte dos músicos "jazzistas", que se encantaram com a batida brasileira, os empresários não tardaram a organizar concertos nas principais cidades norte-americanas. O grande evento de 1962, nesse sentido, foi o showno Camegie Hall, em Nova York. Também foi a gota d'água para acirrar as polémicas em torno do movimento.

Se para os entusiastas da Bossa Nova, a ida da música brasileira para os Estados Unidos significava que o Brasil deixava de ser exportador de sons exóticos e se tornava exportador de um produto cultural acabado (como disse Tom Jobim, em entrevista na época), para os críticos do movimento, nacionalistas radicais, o reconhecimento norte-americano da Bossa Nova era natural, pois o tal do samba moderno não passava de cópia do jazz. Lembremos que esse debate, nacionalismo versus entreguismo, não era uma simples questão de gosto. Num país cada vez mais dividido politicamente e que procurava saídas para os seus impasses sociais, culturais e económicos, a arte e a cultura eram espécies de "laboratório de ideias", campo de elaboração de projetos ideológicos para o Brasil.
A esquerda nacionalista, muito influente nos meios artísticos e culturais e, sobretudo, nos ambientes universitários, se dividiu em torno da Bossa Nova. Alguns jovens militantes reconheciam que cantar a "garota de Ipanema", o "amor, o sorriso e a flor", o "barquinho" e outras mumunhas mais era o mais bestial sinal de alienação, num país vitimado pelo "imperialismo" capitalista (o grande tema dos anos 1950 e 1960) e com uma população de mais de dois terços composta por miseráveis e subempregados, nos campos e na cidades. O "olhar Zona Sul" das letras da Bossa Nova, de costas viradas para os morros e sertões ocupados pela população mais humilde, inquietava os jovens líderes intelectuais da União Nacional dos Estudantes (une), preocupados em criar uma arte engajada, ou seja, que representasse os problemas sociais e políticos do Brasil. Mas, paradoxalmente, o jovem universitário brasileiro apreciava a musicalidade sofisticada das canções rotuladas de
''bossa nova e, bem ou mal, passava a se interessar por música popular brasileira, como algo mais do que lazer diante do rádio. Portanto, para alguns ativistas estudantis não era o caso de jogar fora a Bossa Nova, mas de politizá-la, trazendo suas conquistas musicais para o terreno da arte engajada. Aliás, o nascimento de uma Bossa Nova engajada se deu já por volta de 1960 e 1961. As primeiras músicas consideradas de protesto, "Zelão" (composta e cantada por Sérgio Ricardo) e "Quem quiser encontrar o amor" (de Geraldo Vandré e Carlos Lyra), traziam alguns elementos de ruptura com o estilo consagrado por João Gilberto, mas mantinham a essência de sofisticação instrumental, complexidade harmónica e sutileza vocal, elementos identificados com o movimento. Aliás, Carlos Lyra, considerado membro fundador da turma da Bossa Nova, será um dos fundadores do Centro Popular de Cultura da une. Em "Zelão", o personagem que dava nome à canção era um favelado que vira seu barraco ser arrastado morro abaixo numa chuva e só podia contar com a solidariedade dos vizinhos, também favelados: "Todo morro entendeu quando Zelão chorou / ninguém riu nem brincou / e era carnaval" .

Em "Quem quiser encontrar o amor", a própria forma de falar do amor foi considerada uma ruptura com o suave mundo das letras de Bossa Nova, ruptura esta sintetizada na passagem "Quem quiser encontrar o amor / vai ter que sofrer / vai ter que chorar". Além disso, a música foi incluída no filme Cinco vezes favela, produzido pelo cpc/une.

Havia ainda um outro problema para a esquerda estudantil e ele se chamava rock'n roll, o mais novo "produto da invasão imperialista", segundo os padrões ideológicos da época. O rock'n roll, para a juventude de esquerda, era o símbolo da alienação política e do culto à sociedade de consumo, apesar do ar de rebeldia juvenil que emanava das músicas, considerada uma rebeldia superficial pela juventude engajada. Embora o rock'n roll já tivesse alguns anos de vida como género musical independente no mercado norte-americano, a sua entrada triunfal no Brasil se deu por volta de 1959, ou seja, no mesmo ano de eclosão da Bossa Nova. A fundação do Clube do Rock, no Rio de Janeiro, que reunia a juventude transviada, sobretudo da classe média baixa dos subúrbios, alertou os jovens intelectuais nacionalistas de esquerda. Era preciso criar um gosto por música popular brasileira entre a juventude e não era com o samba quadrado e com os bolerões passionais que tal meta seria atingida. Mais um motivo para resgatar a Bossa Nova de sua alienação e torná-la a base de um novo gosto musical. Mas ela só chegaria às massas se os jovens músicos olhassem para o povo brasileiro, ouvindo o morro e o sertão, incluindo nos temas poéticos e mesmo em alguns parâmetros musicais os sons e temas mais populares. A partir desse projeto musical - e ideológico - nascerá a moderna mpb, em meados dos anos 1960, representada por Elis Regina, Edu Lobo, Chico Buarque, entre outros. Por outro lado, os participantes dos clubes de rock, como Erasmo Carlos, Roberto Carlos e Carlos Imperial, serão os futuros protagonistas da Jovem Guarda. estavam lançadas as bases para a lendária rivalidade musical da segunda metade dos anos 1960.
O Brasil nos anos 50: a modernização capitalista e suas e as suas contradições
No Brasil, em fins dos anos 1950, para amplos setores da sociedade, era preciso ser moderno, mas ao mesmo tempo popular. Esse era o dilema da cultura brasileira até o início dos anos 1960. Mas os caminhos e as interpretações do que era ser moderno variavam conforme os valores estéticos, sociais e ideológicos que informa- vá m os artistas e os ligavam aos outros segmentos da sociedade brasileira.
Para as massas populares, as transformações socioeconômicas lios anos 1950 consolidaram uma cultura de massa urbana (ou melhor, suburbana), cujos circuitos culturais eram o rádio e as chanchadas, além do consumo de uma cultura norte-americana cada vez mais presente e hegemónica no mercado, desde os anos 1940.

Havia também um circuito cultural mais sofisticado, que não chegava a ser uma cultura erudita, como a música, a literatura, mas era uma tentativa das elites económicas, sobretudo as de São Paulo, de criar uma cultura de massa sofisticada, bem produzida, altamente profissionalizada e inserida numa estética internacional. Como exemplo, temos a experiência da Vera Cruz e o Teatro Braleiro de Comédia. Também fazia parte desse projeto, qual seja, m se ii r o Brasil (e particularmente São Paulo) no circuito cultural dos países mais desenvolvidos, iniciativas que não faziam parte do campo da cultura de massa, mas que visavam aprimorar o gosto médio da população brasileira. O Masp, por exemplo, pode ser compreendido, em parte, a partir deste espírito. Como disse o cineasta Nelson Pereira dos Santos, São Paulo queria produzir cultura para o mundo, enquanto o Rio de Janeiro queria produzir cultura para o Brasil.

Como variante dessa busca de aprimoramento e atualização da cultura brasileira e do gosto vigente, sobretudo entre as elites artísticas e intelectuais, podemos compreender o papel das vanguardas dos anos 1950, como o Concretismo. Movimentos como esse atuavam em áreas de público menor, como a poesia e as artes plásticas, mas que eram importantes entre os segmentos sociais mais intelectualizados, considerados formadores de opinião

Num outro pólo, menos preocupados com a forma e mais com o conteúdo (ou melhor, com a expressividade das obras), consolidou-se nos anos 1950 uma cultura de esquerda, engajada, que aglutinou literatos, dramaturgos, cineastas, com o apoio direto e indireto do Partido Comunista Brasileiro. Com o tempo, em meados dos anos 1950, essa variante da cultura brasileira deixará de ; gravitar unicamente em tomo do Partido, ganhando públicos mais amplos, até politicamente descompromissados, e interferindo na própria cultura de massa (sobretudo no âmbito da música popular e na dramaturgia). A consagrada trajetória do Teatro de Arena (e do Opinião), da mpb e o impacto do Cinema Novo (menos no público e mais entre artistas e intelectuais) são exemplos contundentes da hegemonia cultural da esquerda que irá se impor nos anos 60. Nesse novo ambiente cultural, temas como moderno ou popular, forma ou conteúdo, nacionalismo ou cosmopolitismo darão o tom dos debates.
No Brasil, essas transformações foram se consolidando ao longo da década de 1950, e alteraram o consumo e o comportamento de parte da população que habitava os grandes centros urbanos. A paisagem urbana também se modernizava, com a construção de edifícios e casas de formas mais livres, mais funcionais e menos adornadas, acompanhadas por uma decoração de interiores mais despojada, segundo os princípios da arquitetura e do mobiliário moderno. Através da propaganda veiculada pela imprensa escrita, é possível avaliar a mudança nos hábitos de uma sociedade em processo de modernização: produtos fabricados com materiais plásticos e/ou fibras sintéticas tornavam-se mais práticos e mais acessíveis. Consolidava-se a chamada sociedade urbano-industrial, sustentada por uma política desenvolvimentista que se aprofundaria ao longo da década, e com ela um novo estilo de vida, difundido pelas revistas, pelo cinema - sobretudo norte-americano - e pela televisão, introduzida no país em 1950.
A consolidação da chamada sociedade de massa no Brasil trouxe consigo a expansão dos meios de comunicação, tanto no que se refere ao lazer quanto à informação, muito embora seu raio de ação ainda fosse local. O rádio cresceu no início dos anos 50, quando houve um aumento da publicidade. As populares radionovelas, por exemplo, tinham como complemento propagandas de produtos de limpeza e toalete. Na televisão, a publicidade não se limitava a vender produtos, e as próprias empresas eram produtoras dos programas que patrocinavam. Houve um aumento da tiragem dos jornais e revistas, e popularizaram-se as fotonovelas, lançadas no início da década. O cinema e o teatro também participaram desse processo, tanto do lado das produções de caráter popular quanto das produções mais sofisticadas. No caso do cinema, as populares chanchadas, comédias musicais produzidas pela Atlântida, empresa criada nos anos 40, tiveram seu auge nos anos 50, e seus atores foram consagrados pelo público. O teatro de revista, que também misturava humor e música, fazia bastante sucesso. Apesar de originárias da década de 1940, as experiências tanto de um cinema industrial, como foi o caso daquele produzido pela Vera Cruz, quanto de um teatro menos popular, como o do Teatro Brasileiro de Comédia, ainda perduraram ao longo dos anos 50.
Se o otimismo e a esperança implicaram profundas alterações na vida da população em todo o mundo, permitindo, não a todos, mas a uma parcela - os setores médios dos centros urbanos -, consumir novos e mais produtos, por outro lado, a vontade do novo trazia embutido, em várias áreas da cultura, o desejo de transformar a realidade de um país subdesenvolvido, de retirá-lo do atraso, de construir uma nação realmente independente.
O entusiasmo pela possibilidade de construir algo novo implicou o surgimento e/ou o impulso a vários movimentos no campo artístico. Eram novas formas de pensar e fazer o cinema, o teatro, a música, a literatura e a arte que se aprofundavam, como revisão do que fora feito até então. Em alguns casos, consolidou-se um movimento que já se iniciara em décadas passadas. Mas outros movimentos nasceram exatamente naquele momento e se tornaram marcos e/ou referências de renovações estéticas que viriam a se firmar mais plenamente depois. Guardando suas especificidades, e em graus diferenciados, tanto o cinema, quanto o teatro, a música, a poesia e a arte, movidos pela crença na construção de uma nova sociedade - fosse ela industrial, fosse ela centrada na valorização do elemento nacional e popular - abraçavam expressões artísticas e estéticas inovadoras que vinham sendo praticadas não só em outras partes do mundo, mas também no próprio país. Essa foi, em linhas gerais, a marca do processo de renovação estética em curso ao longo da década de 1950. Por outro lado, o vigor do movimento cultural encontrava eco junto a setores das camadas médias urbanas em franca expansão, sobretudo universitárias, sintonizadas com o espírito nacionalista da época, e com a crença nas possibilidades de desenvolvimento do país.
A identificação dos chamados "anos dourados" com o espírito otimista que consagrou o governo Kubitschek acabou, assim, por englobar todo um conjunto de mudanças sociais e manifestações artísticas e culturais que ocorreram dentro de um debate mais geral sobre a reconstrução nacional, em curso desde o início dos anos 50 até os primeiros anos da década seguinte.

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